Pensamento criativo: a prática gráfica à mão livre e a tecnicidade | Arquitetônico

 

ARTE

Pensamento criativo: a prática gráfica à mão livre e a tecnicidade

Croqui de Niemeyer
Croqui de Niemeyer

Hoje, nossos modos de pensar e de criar são fortemente condicionados pela técnica. Este panorama indica um alerta, dada a forma com que a tecnicidade está naturalizada no mundo contemporâneo. De um lado, a tecnologia está imbuída de uma esperança salvadora, trazendo, com tantas inovações, soluções para muitos dos problemas contemporâneos. Por outro lado, ela carrega um caráter apocalíptico, de certa forma até inocente, pela visão fantasiosa de que as inovações tecnológicas destruirão o homem, à modelo das mais elaboradas ficções científicas cinematográficas.

É  necessário esclarecer a diferença entre técnica e tecnologia. A técnica está relacionada com a habilidade e procedimentos que se aprendem e desenvolvem. A própria fala é uma técnica incorporada pelo homem. Sendo ela uma técnica, o limite entre o natural e o artificial é extremamente tênue. Já a tecnologia inclui a técnica e vai além, pois está presente onde quer que haja um dispositivo maquínico que incorpore um saber técnico ou um conhecimento científico. Arquitetos, designers e artistas fazem parte de um grupo de indivíduos do qual se espera contribuições inovadoras e criativas, portanto intimamente conectados com as conseqüências da mudança que vem acontecendo.  Partindo do pensamento de Heidegger, o qual assegura que o problema não é a tecnologia em si, mas o nosso modo de sermos humanos que nos faz ser cada vez mais interpelados pelo pensamento tecnológico, essa pesquisa procurou investigar, através de estudo bibliográfico e pesquisas de campo, se ocorrem perdas criativas decorrentes da nova relação entre homem e tecnologia.

Notamos hoje a disseminação de softwares cujo uso, por vezes, acaba por engessar o processo criativo, visto que se trabalha com precisão e se perde a rapidez que o desenho à mão livre possibilita. As ferramentas utilizadas na concepção de um projeto arquitetônico não são neutras e, no caso de instrumentos como softwares (AutoCAD, SketchUp) tem-se uma forma de conceitualizar e desenhar diferente, visto que estes programas obrigam o desenhista a uma precisão prematura. Softwares, a despeito de sua real utilidade em determinadas situações, estão abaixo das necessidades dos projetos arquitetônicos, sendo a elas inferior, um verdadeiro retrocesso – pode-se assim chamar – frente ao desenho à mão-livre.

A partir do levantamento bibliográfico e do estudo do pensamento heideggeriano, entendido como fio condutor da investigação, pode-se formar um repertório sólido para a análise do tema. Foram estudadas obras de autores como Ivan Izquierdo, Pierre Lèvy, Lúcia Santaella, Manfredo Massironi, Francisco Rüdiger e Ernildo Stein.

Em seu livro Memória, Izquierdo concentra-se nos mecanismos biológicos dos processos mnemônicos, utiliza abordagens experimentais que vão desde a psicobiologia comportamental à neuroquímica, sobretudo focando-se no desempenho em diferentes tarefas comportamentais. A partir dos estudos de Izquierdo, pode-se fazer uma conexão entre as perdas criativas estudadas.

“A memória de curta duração estende-se até 6 horas após o aprendizado; este é o tempo que a memória de longa duração leva para ser construída. Seu papel é alojar temporariamente a memória, enquanto se constrói a ‘casa’ da memória de longa duração”. (IZQUIERDO, 2002).

As obras de Lúcia Santaella, pesquisadora cujo trabalho está voltado para as tecnologias da inteligência, além de estudos através de um viés sociocultural das manifestações diversas das tecnologias e do que chama “pós-humano”, contribuíram largamente na compreensão do tecnológico e proporcionaram uma reflexão acerca das tendências futuras, suas prováveis evoluções, relação com o ser humano e conseqüências disto.

Pierre Lèvy, em sua obra “As tecnologias da Inteligência” discute sobre a informática da simulação, uma tecnologia intelectual que tem a capacidade de estender a memória de trabalho. Sua principal função é a atuar como um módulo externo e suplementar para a faculdade de imaginar. A simulação por computador permite que o indivíduo explore modelos mais complexos e em maior número do que se estivesse limitado aos recursos de sua imagística mental e de sua memória de curto prazo, mesmo com o auxílio estático do papel. A simulação, portanto não remete a qualquer pretensa irrealidade do saber, mas antes a uma melhoria dos poderes da imaginação e da intuição. Ela desempenha importante papel de comunicação e persuasão, principalmente se o modelo visualizado for em uma tela. Não se deve esquecer, jamais, que as tecnologias intelectuais não substituem o pensamento vivo.

A obra “Ver pelo desenho” do arquiteto Manfredo Massironi, pesquisador que também empreendeu estudos nos campos da psicologia e da percepção, enfatiza que o desenho gera diversificados resultados cognitivos. A técnica do desenho articula-se para obter resultados diferentes e funcionais em diferentes necessidades de comunicação e expressão. Contudo, não podemos esquecer que toda representação gráfica é, sobretudo, uma interpretação – uma tentativa codificada de explicar a realidade e, como tal, requer escolhas. A mente humana contém algo que se pode chamar de “sistema conceptual” que organiza o conhecimento, os critérios, as relações entre significados, e assim por diante. Massironi enfatiza a necessidade de integrar os estudos psicológicos aos semiológicos, de forma que um funcionasse como esquema de referência do outro.

O filósofo Francisco Rüdiger aborda a questão da técnica em Heidegger em seu livro e afirma que, para o filósofo alemão, a técnica, encarnada no homem e na máquina, tornou-se o signo mais evidenciado de nossa relação com o mundo e a força a partir da qual se procura articular a sociedade contemporânea. A preocupação de Heidegger fundamenta-se no fato de que, em virtude do predomínio do pensamento calculador, o pensar reflexivo foi posto de lado.

A metodologia empregada para o desenvolvimento da pesquisa fundamentou-se em duas etapas: inicialmente, houve o estudo da bibliografia indicada, cujas obras possuem relação com o tema a ser estudado. Em sequência, realizou-se uma pesquisa de campo com estudantes, através de um questionário com perguntas objetivas e dissertativas, por meio das quais se realizaram análises quantitativas e qualitativas. Para a realização da mesma, os sujeitos respondentes foram escolhidos pelo critério da similaridade; a amostra desejada deveria ser representativa dentro da população, ou seja, os respondentes – grupo de 78 estudantes de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS, com experiência no desenvolvimento de projetos, tendo em vista a o currículo vigente do curso – formam um grupo que delineia um perfil passível de ser generalizado por representar bem o universo estudado.

Com base na pesquisa bibliográfica, foram analisadas as respostas dos alunos em busca de uma tendência entre os mesmos no que concerne ao uso da tecnologia no desenvolvimento de projetos arquitetônicos, bem como a investigação da relevância do desenho à mão livre nos dias atuais.

A pesquisa quantitativa é apropriada para a medição de variáveis e inferências a partir de amostras numéricas, buscando uma tendência relacionada ao conceito.

O croqui à mão livre como catalisador da criatividade no lançamento das idéias foi considerado fundamental por 74% dos estudantes entrevistados. Apenas 19% responderam que não é fundamental, e sim preferencial a presença dos croquis; a porcentagem dos estudantes que considera razoavelmente importante é ínfima. Não houve resposta para a alternativa que caracteriza o croqui como irrelevante. 64% deles dizem sempre iniciar um estudo de arquitetura com croquis; 25% preferencialmente iniciam o estudo utilizando-se de croquis, e não houve resposta afirmando que jamais utiliza o croqui como ferramenta inicial.

No tocante à relevância do croqui após o lançamento do partido, ou seja, durante o desenvolvimento do mesmo, os estudantes que consideram fundamental a presença do croqui no desenrolar do projeto somam 32%; 28% responderam que é preferencial, mas não fundamental; 24% dizem ser razoavelmente desejável e 15% não acreditam ser necessário. Contudo, não houve resposta para a opção “totalmente irrelevante”.

Segundo os estudos de Izquierdo, entendidos através de seu livro “Memória”, a memória de trabalho, ou seja, aquela ativada quando precisamos armazenar uma informação por alguns instantes, é breve, fugaz, imediata. Serve para gerenciar a realidade. Não deixa traços, não produz arquivos. É comum que, na etapa do lançamento do partido, o estudante tenha várias idéias oriundas de fontes diversas, independente do momento ou da situação em que ele se encontre. Quando perguntados, 42% dos estudantes afirmaram que ocasionalmente esqueceram alguma idéia referente ao projeto por não terem a registrado imediatamente. 9% deles dizem nunca ter esquecido.

No que se refere ao desenvolvimento integral do projeto utilizando apenas softwares, excluindo-se a utilização inicial de croquis, é notável a diferença entre os estudantes que nunca o fizeram e sempre o fazem: 10% deles dizem que sempre desenvolvem o projeto apenas com a ferramenta do software, em contrapartida, 61% jamais o fez.

Atualmente, está em voga a discussão sobre a relevância do desenho na profissão de arquiteto. Há quem afirme que com as tecnologias contemporâneas, saber desenhar como forma de expressar as idéias é desnecessário, visto que se tem maior precisão com o uso de programas específicos. Todavia, é grande o número de profissionais e acadêmicos que preza pela habilidade de fazer-se entender de imediato com poucos traços à mão livre. Dos alunos pesquisados, 65% consideram fundamental que o profissional saiba desenhar; em contrapartida, 5% não consideram necessariamente importante. 25% dos estudantes responderam que preferencialmente deve-se saber desenhar, mas nenhum deles diz ser totalmente irrelevante o ato de desenhar.

O termômetro das expectativas dos futuros profissionais em relação à evolução das tecnologias existentes, no caso, os softwares que auxiliam no desenvolvimento dos projetos: nenhum dos estudantes acredita que haverá a substituição absoluta do croqui na etapa inicial do desenvolvimento do projeto, ou seja, há por parte dos estudantes o reconhecimento da importância do desenho a mão livre. 31% deles dizem que jamais haverá a substituição absoluta. A maioria dos respondentes acredita que ficará a critério do arquiteto escolher a forma de projetar, seja por meio de softwares principalmente ou com um estudo maior de possibilidades à mão-livre. E por fim, 24% dos pesquisados acreditam que haverá o aperfeiçoamento dos atuais programas, sem que isso acarrete o abandono do croqui.

Através das questões dissertativas, foi possível abordar os principais aspectos investigados na pesquisa e explorando mais detalhadamente as motivações dos alunos em relação às respostas objetivas. A primeira pergunta, sobre o processo de criação utilizado ao iniciar um estudo de arquitetura, deu margem a uma gama de respostas e métodos praticados pelos alunos.

A repertorização e a pesquisa de referenciais estão entre os métodos mais utilizados no início de um projeto. O croqui foi mencionado em praticamente 100% das respostas, sendo empregado pela maioria dos estudantes até consolidar a ideia e, após definido o partido geral, a principal ferramenta projetual passa a ser o software – para confirmar hipóteses e garantir precisão de medidas.

Plantas e volumes, desenhos bi e tridimensionais, esquematizações, memoriais e notas e diagramas também são frequentemente utilizados pelos arquitetos em formação ao desenvolverem um projeto. Poucos estudantes afirmaram fazer uso de cortes longitudinais/transversais no início da concepção. Inicialmente, alguns ainda buscam certa precisão geométrica com instrumentos como esquadros, régua, compasso e afins.

A pergunta com maior carga de opinião pessoal e até certo ponto polêmica, questionava a importância do arquiteto profissional dominar a técnica do desenho. De modo geral, as respostas mostram que o aluno entende o desenho como instrumento primordial dotado da função de exprimir graficamente o que se imagina, sendo assim importante para os arquitetos que essa demonstração ocorra com rapidez e clareza, satisfazendo os objetivos profissionais, ou seja, de comunicar ao cliente suas idéias e intenções. Os respondentes mostraram-se bastante conscientes e atentos ao impacto que uma demonstração “ao vivo” da idéia de projeto por parte do profissional causa ao cliente. Consideram a capacidade de desenhar essencial para a profissão, por garantir domínio e fluidez no ato de transpor para o plano material o que foi previamente pensado.

Outro ponto destacado nos questionários foi o caráter técnico do desenho, em situações imprevistas como explicar para o executor da obra algo que não foi bem entendido; ou seja, pode-se também enquadrar o croqui na função de esclarecer para “leigos” aspectos técnicos de um projeto.

É importante ressaltar que em diversos casos, houve a associação errônea do croqui com um desenho meticuloso, “renascentista”, rico em detalhes, hiperrealista, por parte dos estudantes, que se mostraram inseguros/inaptos para desenvolver tal desenho “artístico” que mentalmente associavam. Alguns respondentes, em função desta equivocada associação, subestimaram a importância do croqui. A utilidade do desenho para o arquiteto, bem como sua qualidade, não estão relacionadas a tais equívocos. O traço seguro, expressivo, com as devidas proporções é o que de fato se busca para representar com um croqui uma idéia projetual, seja para um cliente ou para o próprio registro pessoal instantâneo de uma idéia fugaz.

Lembremos das palavras de Pierre Lèvy, quando discorre sobre a simulação por computador, reflexão que cabe muito bem no assunto em questão: a simulação por computador torna possível para o indivíduo explorar modelos mais complexos e em maior número do que se estivesse limitado aos recursos de sua imagística mental e de sua memória de curta prazo, mesmo com o auxílio estático do papel. A simulação desempenha importante papel de comunicação e persuasão, principalmente se o modelo visualizado for em uma tela. As tecnologias intelectuais não substituem o pensamento vivo, mas auxiliam a capacidade da imaginação e da intuição.

Em acordo com o que foi respondido pelos mesmos, os softwares são utilizados, pela grande maioria dos estudantes, em etapas mais evoluídas da concepção do projeto, após definidos os aspectos criativos mais importantes e até mesmo alguns técnicos – do partido geral ao pré-dimensionamento de áreas e zoneamentos. O AutoCAD é largamente utilizado, como se pode averiguar em diversas respostas, na etapa do detalhamento do projeto, confirmando a hipótese de ser extremamente útil no que se refere à precisão máxima de um projeto.

Alguns estudantes utilizam softwares simultaneamente ao processo criativo, testando volumetrias no SketchUp, por exemplo. Muitos deles o fazem por sentirem-se mais seguros ao desenvolver um desenho volumétrico com o auxilio da computação gráfica; isto se deve, em parte, à falta de esclarecimento sobre o que vem a ser um desenho expressivo e de qualidade – não tem relação com dons artísticos ou virtuosismo, apesar do mito que a profissão por vezes adquire.

Raros respondentes afirmaram ser totalmente dependentes dos softwares, ou utilizarem-se dos mesmos desde a concepção inicial do projeto em detrimento do croqui.

A pesquisa pôde inferir alguns importantes aspectos fundamentais no que tange à cena criativa contemporânea, irreversivelmente “contaminada” pela iminente tecnologia e seus mais diversos e crescentes meios de propagação.

Para a atividade da Arquitetura, neste contexto novo e de conseqüências futuras ainda desconhecidas, um estudo direcionado sobre como são empregadas as tecnologias específicas – como ferramentas auxiliares no desenvolvimento do trabalho – e de que forma elas são percebidas, qual o grau de importância que a elas é conferido, bem como a freqüência e a dependência dos usuários, entre outras questões abordadas, é de interesse extremo para todos os indivíduos envolvidos na citada área do conhecimento, tanto profissionais atuantes como estudantes em formação – talvez, para estes últimos, as conjeturas tenham um significado mais especial, por estarem defronte ao incerto futuro e, prevenidos com alguns modestos prognósticos, possam estar cientes da diferença entre utilizar-se da tecnologia para benefício próprio e serem por ela utilizados, ao sucumbirem ao pensamento tecnológico, alertado há tempos atrás por Heidegger.

Os softwares mostraram-se excelentes ferramentas para o desenvolvimento com rapidez e precisão de um projeto em etapas mais avançadas. Não foram apontados pelos alunos como fundamentais na etapa da criação, pelo contrário: foi esclarecido que, após definidas as diretrizes e elementos relativos à criatividade e inovação, o AutoCAD e o SketchUp são largamente utilizados para a graficação do que foi determinado.

Nota-se, quando da utilização excessiva do AutoCAD ou SketchUp, que muitas vezes está relacionada à insegurança do estudante em desenhar, por crer que uma faculdade como a Arquitetura, voltada às “Belas Artes” exija um preciosismo e dom inerente. Tal pensamento é um equívoco, visto que a função primordial do croqui não é a demonstração de dotes artísticos, e sim o rápido registro de ideias que, mais tarde, possam ser evoluídas. Lembremos de alguns mestres da Arquitetura, como Oscar Niemeyer: seu traço, embora tremido, transmite segurança no que se quer comunicar, guarda as devidas proporções e é a representação estética bidimensional, em um suporte extremamente acessível, de inquestionável qualidade e beleza. Os aspectos genuinamente importantes de um esboço arquitetônico são, por vezes, esquecidos, em detrimento do mito do dom de desenhar.

O temido automatismo infiltrado na atividade criativa, proporcionado pela larga utilização de tecnologias, deve sim ser observado atentamente, embora os estudantes pesquisados tenham demonstrado certa consciência, em sua maioria, sobre a importância de deixar fluir livremente o pensamento, valorizando a inspiração e, pode-se dizer também, a intuição, engrenagens da inventividade. Isto tudo através de uma ferramenta simples, porém com um significado extremamente importante e simbólico: o croqui.

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Este post é relativo ao trabalho que desenvolvi durante o ano de 2010, juntamente com o Prof. Dr. Paulo Horn Regal em pesquisa dentro do programa de Iniciação Científica da PUCRS, a qual e procurou investigar a relação entre o uso dos meios tecnológicos e a criatividade humana, de que forma o pensamento é afetado por essa crescente tecnologia, maquinização das funções criativas.



  • Diogo

    O debate sobre a necessidade do desenho na arquitetura e principalmente do domínio do arquiteto sobre o desenho é muito interessante. É um assunto que tem muitas e variadas respostas, das quais não é possível se tomar como verdade absoluta. Apesar de eu usar amplamente o desenho à mão-livre, acho que ele não tem uma importância crucial para o processo de criação arquitetônica, é uma via interessante, mas acho que é absolutamente plausível realizar uma boa arquitetura sem esboçar rabiscos no papel. Acho que existe um preconceito corbusiano, niemeyeresco que exige que o croqui NO PAPEL seja uma etapa obrigatória do processo criativo. O croqui, o esboço, que serve para tirar as ideias do cérebro e pô-las de alguma forma na realidade, creio que sempre será necessário e acho que ferramentas computacionais podem auxiliar de alguma forma nisso, isso também é uma forma de desenho. Também é comum a confusão, como você colocou, de croqui com um desenho artístico, “Belas Artes” quando uma representação arquitetônica não poderia ser menos que uma aquarela, muitos bons arquitetos faziam (e fazem) desenhos a mão livre que mais parecem garranchos e tem obras impressionantes, porque arquitetura não é sinônimo de desenho bonito, mas de uma ideia que é transformada em desenho técnico e transformada em obra executada.
    O que Le Corbusier fez de mais impressionante foi alinhar a arquitetura com a sua época, acabando com a ideia de que a arquitetura tinha que ser uma arte bonita (acadêmica) em todas as suas etapas, com isso quebrando paradigmas sobre a obra, e sua representação também. Acho que estamos num momento em que obras e representação também terão que se alinhar ao momento atual, onde uma computação avançada permite inovar, não digo que o croqui no papel DEVE ser substituído, mas que ele PODE ser substituído (ou complementado) e pode trazer consigo (suspeito que já traga) novos paradigmas para a arquitetura. E acho que quanto ao uso de ferramentas computacionais no desenho técnico não há nenhuma dúvida, é impossível realizar um desenho técnico no papel hoje em dia, da mesma forma como as novas tecnologias são imprescindíveis nas diversas áreas: medicina, administração, engenharia, etc.

  • Bruna

    Acredito estar entre a porcentagem que desacredita na substituição dos croquis. Não acredito ser impossível a elaboração de um desenho técnico inteiramente à mão, no entanto, um desenho com elevado nível de detalhes , feito à mão, levara no mínimo o triplo de tempo para ser elaborado quando comparado aos desenhos feitos através de softwares computacionais. Isso sai caro, hoje vendemos projetos considerando o tempo gasto para a elaboração do mesmo e tempo torna-se literalmente dinheiro, o que impulsiona a adoção de softwares em substituição do desenho à mão.
    No entanto, não é em frente à softwares que surgem os projetos. Como aluna posso dizer que todos os meus projetos passam por três etapas no mínimo: estudo preliminar, anteprojeto e Projeto Detalhado, sendo que, dentre as três etapas, apenas na fase detalhada é desenvolvida em softwares computacionais. O motivo é fácil de ser explicado, durante meu dia tenho idéias, idéias que ficam muito bem colocadas se eu ESTUDÁ-LAS com um lápis, uma borracha e um mantega antes de colocá-las em software e dá-las como concluídas, e, quando digo estudá-las não estou me restringindo ao registro apenas, mas ao desenvolvimento.
    Em grandes empresas ainda vejo o desenvolvimento inicial de projetos sendo feito manualmente , através de croquis e perspectivas elaboradas em períodos de no máximo 2 horas com um nível de legibilidade e detalhamento excelentes.
    A meu ver, hoje ainda, softwares são apenas ferramentas de auxílio para apresentação de um projeto mas não ferramentas de desenvolvimento ( com algumas poucas excessões..leia-se por exemplo projetos de arquitetos como Zaha Hadid com elevado nível de complexidade). O desenvolvimento ainda se restringe à capacidade criativa frente à um papel em branco não importa qual seja o nível ou qualidade do desenho.

  • Diogo

    Sim Bruna, óbvio que não é impossível fazer um desenho técnico a mão, mas não é viável, o que torna impossível em termos práticos, para que a obra seja realmente realizada, o projeto arquitetônico passa por diversas etapas, onde somam-se projetos de várias áreas, elétrica, hidráulica, mobiliário, etc. No passado necessitava-se de várias cópias heliográficas de tamanho A0, hoje tudo circula em arquivos eletrônicos, toda a obra arquitetônica (que não seja um puxadinho) depende dos softwares.
    Mas como eu disse, pergunte para um administrador se é possível trocar a planilha eletrônica por planilhas no papel. Talvez a tarefa eletrônica possa ser reproduzida no papel, mas o contexto real impede que tal coisa aconteça, provavelmente a empresa iria a falência fazendo isso.

  • Bruna

    Sim sim, nesse contexto concordo. Principalmente quando levamos em conta as novas tecnologias e especificidades contidas em um projeto, tais como elementos constantes de projeto de conforto do edifício contruído, estrutura e métodos construtivos e etc…, elaborar desenhos manuais chega a ser inviável…

    No entanto, principalmente nos projetos da estrutura o computador pode enganar de um modo que o desenho manual com a devida atenção do projetista não enganaria. Sei de projetos arquitetônicos grandiosos que possuíram erros absurdos devido à demasiada confiança em software e falta de desenvolvimento pessoal… o velho papel e lapiseira.

    Obviamente não estou me referindo ao gerenciamento do projeto, pois nesse caso, ou um computador ajuda ou não há santo que salve-nos da confusão… Mas acredito que me expressei mal, o que quis dizer é… não importa o quanto de tempo se poupe em computador ou as novas tecnologias, o velho croqui manual não será substuído.. é a expressão do arquiteto, é a individualidade e marca registrada dele, é a origem dos questionamentos e desenvolvimentos de detalhes projetuais.

    Precisaremos do desenho digitalizado para compatibilização e interface com outras disciplinas… OBVIO… mas ainda assim o papel mantega e a lapiseira estará na prancheta do arquiteto.

    • Diogo

      Acho essa visão de que o croqui a mão livre não será substituido um pouco precipitada, basta ver a evolução da história da arquitetura e como, já expliquei, os meios eletrônicos tem emergido e se tornado insubstituíveis. É até natural, técnicas que eram antes comuns, dão lugar a novas técnicas comuns, o mundo muda e a arquitetura também. Aliás esse é um dos pontos positivos da arquitetura, acompanhar as mudanças do mundo, sem perder qualidade e atendendo a novas demandas. Na verdade o croqui em muitos projetos já é substituído, existem obras tão complexas surgindo que é quase impossível imaginá-las e desenhá-las à mão-livre, o movimento até já tem nome “digital architecture”. Existe um preconceito (cheio de dor-de-cotovelismos corbusianos) que diz que aquele projeto que não surgiu de um croqui no papel com o traço trêmulo não é uma boa arquitetura. Da mesma forma que os ecléticos diziam que o modernismo era uma espécie de delírio passageiro, que não funcionava e que jamais seria amplamente difundido. Atualmente, é possível fazer arquitetura sem croqui a mão-livre, isto é fato, e ainda mais, é possível fazer essa arquitetura que surge de estudos digitais ser uma boa arquitetura. Creio que o cenário atual é: croqui no papel e estudos digitais são válidos. Mas, quem que pode afirmar que no futuro a pratica digital não será muito mais difundida e o croqui no papel não será obsoleto? Quem que pode afirmar que SÓ é possível fazer arquitetura com croquis no papel manteiga? O futuro é incerto, mas se até o próprio papel é posto em xeque para as próximas décadas e já é substituído por meios eletrônicos, que dirá o croqui no papel.
      Como eu disse, eu ainda faço projetos baseado em croquis de estudos no papel e maquetes de papel, é uma forma ótima de se projetar, mas gostaria de aprender novas formas de projetar (no Brasil a arquitetura digital não é explorada tão a fundo), quem descobre se elas são válidas ou não é o próprio arquiteto e de forma alguma o croqui no papel será insubstituível. Como eu já escrevi aqui alguma vez, o arquiteto tem que ser um curioso.

Escrito por: Janaina Ghiggi
Postado em: 22 de May de 2011

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