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Passarás pelo Mercado de São José

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Hoje o nosso bate-papo é uma volta ao passado para visitar a memória viva de uma cidade “maurícia”. Vai ser bom pra mim e para você conhecer um mercado típico da pré-modernidade que vive de corpo e alma integrado no centro do Recife. Chamado de Mercado de São José, seu interior e ruas adjacentes são uma série de frutas, artesanatos, peixes, e uma árvore genealógica nordestina de vários tipos como emboladores, mágicos, artesãos, prostitutas, feirantes, etc. Um verdadeiro sistema nervoso central que foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1875. Meu bisavô deve ter ido pra essa festa. Já imaginou a concentração de gente pra comer bolo, cachorro quente (na época ainda não se chamava hot dog), coca-cola e pipoca de microondas? (odeio!).

Vamos por partes: no local construíram um mercado mais simples, o Mercado da Ribeira do Peixe, aí derrubaram e o Imperador Pedro II foi quem escolheu o lugar exato onde iriam construir o novo Mercado de São José.

Aí tudo bem, a TV dando a notícia ao vivo, mas a Igreja Católica, com suas interconexões com o Vaticano disse que as terras pertenciam a ela. Você sabia disso? Uma partícula atômica no mundo de terra que essa instituição tem. O vuco-vuco durou 54 anos na justiça. Evidente que o imperador respondeu à altura pondo fim à luta, com este texto: “admitindo-se serem régias as terras da área para usufruto do povo.”. depois disso o antigo mercado foi derrubado e a metade dos materiais deve ter ido pra usina de reciclagem.

 A nova obra foi encomendada ao arquiteto e engenheiro J. L. Victor Lienthier. O cara deu o sangue pra criar o mercado? Não! Ele copiou o Mercado de Grenelle em Paris. Um arquiteto francês conhecido na cidade deu uma força, Louis Léger Vauthier.

 Se você tem aversão a números, veja só quanto custou o prédio superfaturado (brincadeirinha): trezentos e noventa mil contos, trezentos e quinze réis, cento e trinta e seis derréis. Essa super cifra foi pedida emprestada ao Banco do Brasil que já existia.

Levando em consideração que aqui não se fabricava quase nada, a não ser menino e cachaça, o material veio todo de fora. O ferro pré-moldado, da Inglaterra (Revolução Industrial é isso), o mármore, de Portugal, e o vidro, madeira e telhado, da França de Napoleão.

A área construída é dividida em quatro partes e tem 4.500 metros quadrados.

Bom, em 1875, o mercado pronto, com os cabos de Internet instalados, alguém teve a feliz ideia de colocar um livro de assinaturas. A primeira pessoa foi Joaquim Nabuco. Ele escreveu: “Das vezes que tenho visitado este Mercado, tenho sempre me confirmado na convicção de que elle é administrado com honra e brilho para nossa bella cidade, da qual é um dos primeiros ornamentos.”

“São tantas emoções.” “Essas recordações me matam.”

 No ano de 1911 o mercado ganhou o título de “Melhor Mercado do Mundo”. A disputa foi na cidade italiana de Torino. Com tantas honrarias, com tanta força muscular, ele foi tombado pelo IPHAN em 1973. Mas, tem coisas que enfraquecem esse patrimônio. O bom seria que seus corredores fossem livres de mercadorias para que os visitantes pudessem caminhar livremente como no mercado de Gdansk na Polônia, ou estivesse cheio de executivos, como no Mercado Público de Montevidéu, no Uruguai, onde é tão limpo que quase todo mundo que você encontra por lá está vestido de paletó e gravata.

Nas vizinhanças seria bom que fosse como as feiras livres do Chile onde você não vê uma casca de fruta no chão. Seria bom, mas não é.

Enfatizando ainda mais a situação precária: Bagdá perde! Bem perto do mercado a caminhada que você vai fazer até chegar a ele é em longo prazo, formando um ziguezague estonteante. É tanto camelô (subemprego), que obviamente você não sente mais vontade de retornar ao monumento histórico.

Aonde eu vim parar?

Você fica hipnotizado com barulho de carro de som e das lojas, lixo e o abandono dos centros das cidades brasileiras.

O Mercado de São José faz você suar a camisa nos seus mais de 400 pontos de vendas. Isso implica em dizer que é uma atração que tem como regra, expor parte considerável do Nordeste brasileiro. Para percorrê-lo? Haja energia!

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Referências


1 - Mercado de São José História e cultura popular, de Sinesio Roberto Nascimento. Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2005.
  • Guilherme

    Primeiro de tudo, texto muito divertido! Descontraído como o ambiente que eu espero encontrar no Mercado de São José! :D
    Os centros históricos das grandes cidades são abandonados por definição. O barulho das buzinas, o lixo, tudo isso se vê aqui em Floripa, lá em Salvador, em tantas outras localidades importantes. Longe de mim dizer que esse tumulto é uma coisa boa, mas por outro lado, o que é que faria destoar o Mercado de São José do Mercado de Grenelle? A brasilidade. E esse tumulto de camelôs no meio da rua (que eventualmente acabam se integrando à construção e criando uma coisa só), isso é brasilidade! Essa desordem toda, as cascas de fruta… se fosse como em Montevideo, seria uruguaio, não brasileiro. É lógico que a poluição dos carros e o lixo espalhado pelas ruas são problemas a que têm que se atentar as administrações municipais, mas fora essas questões práticas e objetivas não me parece possível conter o avanço desse tumulto tão característico do nosso país.
    Em tempo: se eu não lesse o post era bem capaz de achar algo de Déco naquele elemento na entrada do mercado, heim? Curioso!

Escrito por: Edmilson Vieira
Postado em: 30 de August de 2011

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