Igreja da Pampulha | Arquitetônico

 

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Igreja da Pampulha

Leitura de uma obra repleta de releituras históricas


Há duas semanas fui a Minas Gerais com a faculdade, pela disciplina Arquitetura Brasileira I. Essa viagem incrível por várias cidades (Tiradentes, São João del Rei, Congonhas, Ouro Preto, Mariana, Diamantina e Belo Horizonte) ainda vai protagonizar um post, assim que acabar essa loucura de fim de semestre – será necessário tempo para escrevê-lo. Mas neste post quero falar sobre aquilo que foi exceção na viagem, que foi visto apenas no seu último dia: o modernismo. Mais precisamente, sobre a Igreja São Francisco de Assis, ou Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte.

A igreja projetada por Oscar Niemeyer e inaugurada em 1943 é parte do Conjunto Arquitetônico da Pampulha (que receberá mais destaque quando se for falar sobre a viagem), conjunto que abriga diversos ícones do modernismo brasileiro, que ao mesmo tempo são cartões postais da cidade de Belo Horizonte.

Por que a Igreja da Pampulha? Por causa da relação que ela a princípio não parece ter mas tem com as tantas igrejas barrocas que visitamos antes nas cidades históricas de Minas. Também por sua estrutura singular, que se destaca em meio a tantas obras relevantes do modernismo. Sim, pois na Igreja da Pampulha Niemeyer não lançou mão de janelas em fita ou de uma grande laje sobre pilotis – aliás, não houve uso de vigas ou pilares estruturais. Na minha leitura pode estar aí um paralelo com as igrejas barrocas que abundam em Minas: a vedação estrutural, que se utiliza de arcos e abóbadas para vencer grandes vãos. A estratégia do arquiteto foi explorar a plasticidade do concreto armado (material amplamente desvendado pelos modernistas) para criar uma grande casca autoportante que abriga o templo religioso. O cálculo dessa estrutura arrojada foi feito por Joaquim Cardozo.

Casca parabolóide de concreto armado que dá estrutura e forma à igreja

Igreja em São João del Rei, onde arcos e abóbadas vencem grandes vãos (Foto: Ana Luíza Zabotti)

Ao entrar na edificação vi aumentar minha sensação de que o que se via ali era uma engenhosa e sensibilíssima releitura de tantos elementos onipresentes em igrejas barrocas (e não somente barrocas, mas faço a comparação devido à íntima relação que o estilo possui com o patrimônio arquitetônico preservado que é símbolo de Minas Gerais). Apesar de nitidamente a Igreja da Pampulha não exibir a escala magnífica das igrejas barrocas (até porque a Igreja Católica no século XX já não busca se impor pela ostentação da construção como no século XVIII), ela mantém o programa tradicional dos templos religiosos. Estão presentes, a sua maneira, o altar, o coro, o púlpito, a sacristia, o campanário. Mas a relação não pára por aí.

Perspectiva do interior da Igreja da Pampulha, em que se fazem notáveis o coro, o batistério, os púlpitos, o altar-mor, os desníveis na nave principal (Desenho: Henrique Mindlin)

Detalhe do campanário da igreja (Foto: Ana Luíza Cartana)

Como previamente citado, o nome da igreja faz referência a São Francisco. As construções barrocas franciscanas se notabilizam, entre outros elementos típicos, pelos azulejos portugueses, vistos também com menos freqüência em templos e conventos carmelitas. E eis aqui sua genial releitura feita por um dos grandes mestres do modernismo brasileiro: Cândido Portinari. Os azulejos que ornam o interior e o exterior da construção se apresentam como um dos elementos que mais atribuem identidade à Igreja da Pampulha.

Azulejos de Portinari na fachada (Foto: Ana Luíza Cartana)

Detalhe de azulejo de Portinari no interior da igreja, representando São Francisco de Assis

Altar-mor da Igreja de N. Sra. do Carmo de Ouro Preto, com seus característicos azulejos portugueses (Foto: Ana Luíza Zabotti)

Detalhe dos azulejos portugueses da Igreja de N. Sra. do Carmo (Foto: Ana Luíza Zabotti)

Note-se que esses fortes elementos decorativos estão presentes também nos degraus que podem ser vistos nas duas laterais da nave principal. Aliás, esses desníveis não são por acaso: a diferença de nível é um desses elementos que caracterizam as igrejas barrocas. O espaço destinado aos fiéis fica sempre abaixo daqueles espaços destinados ao altar principal e aos altares laterais. Na Igreja da Pampulha essa diferença foi trabalhada de forma sutil nas laterais da nave principal e de forma bastante pronunciada (apresentando inclusive degraus) quando delimita o altar principal.

Degrau ornamentado com azulejos, e na parede gravuras de Paulo Werneck (Foto: Felipe Rizzon)

Interior da Igreja de N. Sra. do Carmo, em Ouro Preto, em que se nota o sutil degrau na lateral da nave (Foto: Ana Luíza Zabotti)

A maneira como o altar principal se impõe dentro da igreja, com o mural de Portinari, também faz notar a relação que o texto propõe. Sua forma arqueada e relativamente simples chega a remeter fortemente ao singular retábulo-mór da Igreja Matriz da Sé de Mariana-MG, embora não haja a referência direta no projeto.

Altar da Igreja da Pampulha

Retábulo-mór do altar da Matriz da Sé, em Mariana

O batistério ricamente ornamentado por Portinari e Alfredo Ceschiatti também parecem fazer referência aos batistérios das igrejas barrocas, assim como notam-se elementos que se posicionam de forma equivalente aos altares laterais presentes nas igrejas barrocas. A relação também aparece na forma do coro. Os brises trabalhados na metade superior da fachada podem remeter também às aberturas treliçadas costumeiramente trabalhadas nos coros das igrejas barrocas.

Batistério da Igreja da Pampulha

Detalhe do coro da igreja. A ondulação na face oposta à da foto (clique na foto para ampliá-la) é vista também na Igreja do Rosário de São João del Rei, na Matriz de Santo Antônio de Tiradentes, entre outras. (Foto: Felipe Rizzon)

Coro da Igreja da N. Sra. do Carmo de São João del Rei (Foto: Lucas Passold)

Não é possível que se escreva sobre a Igreja da Pampulha sem falar da incrível escada torça que leva ao coro. Sua forma ousada explora mais uma vez as propriedades do concreto armado – note-se que ela se apoia somente na laje do coro e no piso térreo.

Escada que sobe para o coro (Foto: Felipe Rizzon)

Mesmo com toda a sensibilidade e o cuidado na releitura dos elementos que caracterizam as tradicionais igrejas barrocas, Niemeyer não viu logo de cara sua igreja ser igreja. Isso porque o arcebispado não permitiu que fossem realizados cultos no local por quatorze anos, por crer que a forma da edificação vai contra as tradições da igreja. Assim, o monumento ficou sem sua função original até 1957, quando foi finalmente aberta para cultos.

Oscar Niemeyer projetou um sem-número de igrejas, tanto que chegou a lançar um livro recentemente reunindo somente seus projetos de cunho religioso. A Igreja da Pampulha, contudo, continua a se destacar, sendo em minha opinião uma das principais obras do arquiteto. Nesse projeto é possível ver arrojo estrutural, referências históricas, além da brilhante contribuição de Cândido Portinari, Alfredo Ceschiatti, Burle Marx e Paulo Werneck. Quando falamos sobre projetos de arquitetos consagrados, é sempre necessário que se tenha cautela para que se faça uma crítica apropriada. Mesmo assim é difícil não reconhecer a razão do reconhecimento de Niemeyer como um dos maiores arquitetos do país quando se observam obras que representam o auge do modernismo brasileiro.

Você já foi à Igreja da Pampulha? Notou outros elementos que façam referência histórica, ou que simplesmente mereçam ser citados? Então comente e compartilhe conosco!

*Agradecimentos ao pessoal que tirou algumas das fotos (Ana Cartana, Ana Zabotti, Felipe Rizzon, Lucas Passold). As fotos que não estão referenciadas foram encontradas na internet sem referência de autoria.

  • diogo

    Essa obra é muito interessante e apesar da escala muito modesta seu papel para a arquitetura brasileira é colossal (O MES ainda era muito corbusiano). As referências ao barroco vão além: monumentalidade a despeito da escala, as igrejas barrocas do Brasil não eram enormes, eram modestas, mas possuem um trabalho arquitetônico e sua inserção na paisagem da vila tornam as obras referência, monumento, além disso há o trabalho que funde arquitetura e artes plásticas: a presença dos murais e o trabalho dos elementos arquitetônicos de forma escultórica ilustram isso. É mais ou menos o resultado do que vinha acontecendo no Rio de Janeiro, o momento em que surge a nossa arquitetura moderna, Niemeyer na sua melhor fase, uma fantástica fusão entre arquitetura, arte e paisagem. Um momento em que, como você bem escreveu Guilherme, pensava-se o Brasil do futuro, com reverência a cultura arquitetônica do passado. Uma coerência de um processo histórico de um modernismo que surge com continuidade da necessidade de afirmação e de procura de identidade que surgia com a nova república. Diferente do modernismo europeu, que se propunha a romper com qualquer passado para vislumbrar o futuro a partir do novo, buscou-se uma originalidade (claramente não é apenas uma reconstrução de um passado, muito longe disso) a partir de uma liberdade formal e uma referência a um passado também original que passava a ser valorizado. Por isso essa arquitetura foi duramente criticada por muitos arquitetos e críticos europeus, chamada de delírio, maneirismo, desperdício e principalmente por não ter função social. Somente nos anos 50 que na Europa algo a mais que a caixa funcional passará a pautar as discussões sobre arquitetura, muitos dos temas já estavam presentes na arquitetura de Niemeyer.

  • Alex Pires

    Boa tarde, meu nome é alex. Sou criado de uma marca e gostaria de utilizar alguns imagem da igreja da pampulha, como que eu fazor para conversa diretamente sobre este assunto e ter um autorizaçao.

    obrigado.
    Alex Pires
    31/99628359

  • http://j07r10 Julia

    obrigado Ajudou Muito no meu trabalho de historia , tirei um 10 :)

Escrito por: Guilherme Ruchaud
Postado em: 9 de November de 2011

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