As passarelas de Lelé em Salvador (e um pouco de sua história) | Arquitetônico

 

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As passarelas de Lelé em Salvador (e um pouco de sua história)

Grandes passagens que unem um lado da rua ao outro, mas também inteiras comunidades


Eu sou um grande fã do Lelé. Não só por suas obras arquitetônicas extremamente bem pensadas mas também por ser uma prova viva de que o arquiteto é um ser multidisciplinar. Nascido no Rio de Janeiro e formado na Escola Nacional de Belas Artes vem cumprindo um legado de mais de 50 anos de carreira que envolvem, na maior parte, arquiteturas de caráter público como escolas, hospitais, mobiliário urbano e por aí em diante.

Tive o prazer de conhecer o João Filgueiras Lima (Lelé) no ano passado assistindo uma palestra e entrevistando-o aqui para o site (infelizmente o arquivo da entrevista foi perdido e não foi publicado) e dali em diante comecei a acompanhar melhor o seu trabalho muito porque – e agora sem dúvida – os seus projetos não são tão reverenciados aqui no Brasil como deveriam.

Lelé é provavelmente o arquiteto que mais possui obras espalhadas pelo Brasil, além de ter sido ferramenta chave na construção de Brasília ao lado de Oscar Niemeyer. A parte mais conhecida de sua carreira são a série de construções feitas para a Rede Sarah de hospitais e que realmente merecem destaque.

Mas neste texto irei falar mais especificamente da influência de Lelé na cidade de Salvador, onde participou arduamente no processo de (re)urbanização e que nos deixou uma série de ensinamentos tanto de arquitetura como de urbanismo, de preocupação social e de estética, de economia e racionalidade, enfim, de muita coisa interessante.

Salvador histórica nasceu como uma cidade planejada, influenciada pelo desenho urbano ibérico e de caráter renascentista. A partir do centro em que foi assentada, o núcleo urbano cresceu ao seu redor desordenadamente e assim seguiu até que no Século 20 voltou a ser pensada em termos de planejamento urbano – só que de modo prematuro.

Cidades alta e baixa

Naquela época as cidades estavam se transformando radicalmente para acompanhar o novo estágio de industrialização, demonstrando seu poder tecnológico e inovador perante ao mundo. No Brasil não foi diferente, e regidos pelo “progresso” começaram as iniciativas de modernização de cidades como o Rio de Janeiro. Salvador seguiu essa ideia e os principais ícones históricos da cidade passaram a ser vistos como um atraso e muitas construções antigas foram demolidas. Infelizmente, como cita Antonio Risério, “o urbanismo moderno ou modernista nasceu de costas para o passado”.

Centro histórico de Salvador

Mais tarde o urbanista Mário Leal Ferreira criou o EPUCS – Escritório de Plano de URbanismo da Cidade do Salvador – e concebeu um projeto que visava reconfigurar Salvador, preservando o centro histórico e conduzindo uma expansão pelos vales quase desabitados. A cidade inchou e foi preciso desafogar o centro, levando as pessoas pelas avenidas até o CAB (Centro Admnistrativo da Bahia), uma espécie de pólo urbano que reunissse os serviços de admnistração pública. “O governador (Antonio Carlos Magalhães) está louco, quer levar o governo para o meio do mato!”. Este comentário popular foi mais do que precipitado pois, com a ajuda de Lucio Costa, Salvador finalmente tornou-se algo dentro dos termos de uma métropole.

Avenida Paralela que leva ao Centro Administrativo da Bahia. Foto: blog Salvador Tour.

Foi aí que Lelé entrou na históra de Salvador, sendo chamado para projetar e cosntruir os prédios do CAB. A partir daí desenvolveu uma série de projetos urbanos que marcam até hoje a identidade da cidade. Muitos desses projetos foram concebidos pela FAEC – Fábrica de Equipamentos Comunitários -, uma empresa construtora do governo de Salvador encarregada de planejar e executar sistemas de saneamento, equipamento urbano, escolas, creches e muros de arrimo, liderada por Lelé, usando primordialmente a argamassa armada e o aço. A FAEC era uma grande realização pois envolvia muita potencialidade na construção urbana de Salvador, inserindo no contexto a mão-de-obra local e a velocidade de montagem.

As enormes vias que conectam o centro da cidade foram a grande causa da ocupação nas encostas dos vales e ao mesmo tempo romperam as conexões que os pedestres tinham entre os bairros. Este cenário aparentemente assustador foi o palco para a criação de diversas passarelas que o Lelé desenvolveu.

Passarela de Lelé – Foto Marcus Gusmão

O projeto das passarelas era parte integrante de um projeto de transporte em massa da cidade, que seriam guiados por bondes modernos, o que chamamos hoje de VLT. Os bondes ligariam o bairro de Murrurunga à central estação da Lapa, reforçando a acessibilidade ao centro histórico da cidade. Por falta de juízo dos administradores e pressão de empreiteros o projeto dos bondes foi arquivado.

Passarela Pernambués

É importante conhecermos todo esse contexto em que as passarelas se inserem porque, em minha opinião, elas não são apenas pontos de distribuição de fluxos ou uma mera passagem acima da avenida, elas são uma consolidação do espaço urbano daqueles bairros. Elas não servem apenas para firmar a conexão com o centro antigo mas também são uma união entre uma comunidade e outra. “Ligam as paradas de ônibus situadas em ambos os lados das avenidas à parada de bonde no eixo central, estabelecendo uma relação intermodal do sistema de transporte público e religando os bairros situados originalmente no topo das montanhas e estendidos pelas encostas, sem que para tanto seja necessário descer até o fundo do vale” (Márcio Correia Campos). É possível notar esta integração na foto de satélite abaixo, o elo que cada passarela cria entre diferentes tipos de edificações e bairros (clique para ampliar).

Como exemplo, podemos citar a passarela da avenida Bonocô – Luís Anselmo, que articula-se de diversas maneiras, sendo uma extensão da escadaria da comunidade do bairro que se conecta ao outro lado da rua para o outro bairro e aos 3 outros pontos de ônibus vencendo as dificuldades topográficas. Existem também outras passarelas que possuem funções diferentes, como comportar o fluxo de edificações de grande porte – como a Passarela da Estação Rodoviária – e também para o cruzamento seguro de pedestres por cima das avenidas de grande movimento – como a passarela que une os Barris ao Tororó.

Passarela Bonocô – Luis Anselmo

Em geral as passarelas tem um aspecto leve, formadas por um elemento circular que articula os tramos modulares formados por vigas metálicas lineares e com piso plano e cobertura abobadada em argamassa armada. O arquiteto desenvolveu um sistema prático, leve e de fácil montagem que no princípio recebia críticas podendo ser o lar de moradores de ruas, mas que na verdade até hoje une a cidade. O sistema influenciou outras cidades como Lauro de Freitas e capital catarinense, Florianópolis, tendo os seus componentes executados na FAEC e transportados até o local para montagem.

Pilar cogumelo da Passarela da Avenida Paralela

Recentemente o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia da Bahia (CREA) afirmou que há uma lei que diz que as passarelas brasileiras não podem ter inclinação maior que 8,33% para o acesso a deficientes físicos e que as passarelas de Lelé devem ser refeitas. Bom, considerando que o estado atual das passarelas é de completo abandono, que pessoas com problemas de locomoção não devem subir em rampas desacompanhadas e que passarelas menos inclinadas simplesmente não caberiam nos seus respectivos terrenos, essa afirmação acaba sendo um pouco contraditória. Sendo assim, precisariam aplainar também todos os vales de Salvador. Outro assunto polêmico é a atual construção de um metrô de superfície que está começando a rasgar a cidade (e as passarelas) com as suas avenidas elevadas.

Passarela Bonocô – Ogunjá

Fica claro nesta extensa lista de obras urbanas, e em outros trabalhos, que Lelé faz o que todo arquiteto deveria fazer, preocupando-se com todos os aspectos de seus projetos, desde o conforto dos usuários até a economia, desenho, contexto urbano, preocupação social, aspectos climáticos e engenhosidade. Em algumas fotos é possível notar como algumas passarelas começam dentro de escadarias de comunidades, integrando totalmente o fluxo do bairro ao seu entorno, podendo ser comparado à mesma ótima intenção dos bondinhos de Valparaíso. Se você não sabe muito sobre João Filgueiras Lima, pesquise seus projetos que, por serem de caráter público não são muito divulgados na internet, e veja como todos seguem essa mesma linha de pensamento. Atualmente Lelé vem trabalhando com conjuntos habitacionais para o programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal e vem obtendo grandes resultados.

Veja abaixo mais algumas fotos:

Referências


1 - Risselada, M., & Latorraca, G. (2010). A arquitetura de Lelé: fábrica e invenção. In: A. Risério, H. Segawa, M. C. Campos, M. Risselada, & R. Pinho, A arquitetura de Lelé: fábrica e invenção (p. 243). Imprensa Oficial, Museu da Casa Brasileira.
  • Nelly Mello

    Eu quando comecei a ler a matéria, tinha certeza que havia sido escrita pelo Lucas.
    Quando falas do Lelé, falas com um brilho no olhar, com admiração e respeito.
    A arquitetura é isso mesmo, obrigado por nos fazer viajar nesse mundo tão maravilhoso…

    Excelente matéria. Parabéns !!!

  • Bruna Ferreira

    Só para variar um texto muito bem escrito. Admiro muito o modo como Lelé trata a cidade, a arquitetura, aliando técnica e estética, mas é uma tristeza imensa saber que o projeto dos VLTs, que todo o plano urbanístico elaborado por Lelé foi engavetado, esquecido sem que ao menos o valor e mérito mínimo para um projeto de tamanha importância fosse considerado.

    Vejo isso em muito do que acontece em SP também, como é o caso das ciclovias de SP que nunca são implantadas conforme os projetos e considerações dos arquitetos, é tamanha desconsideração que me faz acreditar que de fato a politicagem toda vê arquitetura com olhos estéticos e pouco técnicos.

    Ótimo texto Lucas.

  • http://htpp//youtube.lous.com,br,ba ruan

    eu amo minha cidades são salvador

  • Fabricio Araujo

    bom não moro aí mais só de olhar adorei a arquitetura de lelé,muito linda adoraria que existisse uma dessa na cidade onde moro…mas que pena que não são todos que dão valor……..meus parabêns!!!!!!!!!!!!!!!!

  • Mariana

    Muito bom resumo da obra de Lelé em Salvador! Gostaria que você divulgasse o ano da foto em que aparece o elevador Lacerda e a antiga biblioteca que foi demolida. No local, hoje, fica a sede da prefeitura de Salvador, projeto de Lelé, num diálogo perfeito com os demais prédios do entorno, no centro histórico!

    • Lucas

      Oi Mariana, tentei achar para você a data da foto mas não aparece em nenhuma outra fonte… Em um dos sites que vi o redator disse que talvez seria da década de 1930. Mas nada certo. Obrigado por acessar o site, fico feliz que tenha gostado do texto. Abraços

  • Isaias

    Acho muito interessante a idéia das passarelas, principalmente no que diz respeito a eliminação de semáforos em locais de grande fluxo, porém acredito também que os ideializadores não pensam o suficiente, no que que se refere a agilidade das pessoas, observem passarelas e comprovarás, que sempre a perna de descida está para um lado e nem sempre os usuários vão para aquele lado, daí há individuo “sem noção de perigo” e não utilizam o meio de transposição de um lado para outro. Acredito que no mínimo onde não há espaço para 02 descidas, deveria colocar em uma extremidade uma escada o que dá opção para as duas situações. Vamos pensar, não é?

Escrito por: Lucas Passold
Postado em: 17 de March de 2012

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