A Semana de 22 e a sua relação com uma arquitetura supostamente moderna | Arquitetônico

 

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A Semana de 22 e a sua relação com uma arquitetura supostamente moderna

Dicotomias que influenciam os projetos arquitetônicos até hoje

Desenho-de-Georg-Przyrembel
Desenho-de-Georg-Przyrembel

CONTEXTUALIZAÇÃO

A Semana de Arte Moderna de 1922 não foi apenas um encontro de grandes artistas e obras em prol da nova era artística que ali iria se configurar. Mais do que isso, uma consequência das questões políticas e econômicas da época, da luta por uma nacionalidade e representatividade brasileira moderna no campo da arte, da configuração de uma contradição entre o encontro do antigo com o novo.

Para melhor entender o contexto desse movimento, é necessário compreender o caráter de nosso país do início do século XX, pelo menos fundamentar algumas das bases formadas para a consolidação de um “espírito” moderno dentro da sociedade brasileira.

A plataforma política do Brasil do começo do século XX era sustentada principalmente pela valorização do café, onde o governo comprava os excedentes do produto, garantindo os lucros do setor e a estabilização da economia. A troca de favores dos oligárquicos do café mantia o governo sempre associado a esse produto e aos seus principais produtores, estabalecendo uma relação de mutualismo entre os poderosos desse meio. Ao mesmo tempo, devido a destruição dos países participantes da Primeira Guerra Mundial, as importações de produtos estrangeiros diminuíram drasticamente, aumentando o incentivo à criação de pequenas indústrias nacionais que tentavam suprir aquele mercado.

Política do café com leite. Fonte: http://imagohistoria.blogspot.com.br/2010/07/primeira-republica-politica-de-cafe-com.html

Desses dois lados distintos que ocorriam nasce uma luta pelo poder e pela representação do país entre as oligarquias do café e a classe empresarial emergente. A falta de boas condições de trabalho, com um nível tecnológico baixo, levou a indústria a ter que aumentar as jornadas de trabalho, e conseqüentemente a despertar um senso dos trabalhadores. Aliado a isso, muitos dos empregados eram imigrantes fugindo da guerra e que vinham ao Brasil já insatisfeitos com as condições de seus país, influenciados por um sentimento de rebelião e por uma luta de direitos. Muitas foram as reivindicações operárias e publicações de cunho anarquista e socialista daquela época, lutando pela melhora do salário, condições de trabalho, turnos e etc.

Mas a reviravolta política aconteceu principalmente pelos chamados “tenentes”, jovens oficiais do Exército que se opunham contestadamente aos cafeeiros, e que advinham mais precisamente dos estados de São Paulo e Minas Gerais. “(…) a Revolução de 1924 em São Paulo e o bombardeio da cidade; o levante do encouraçado São Paulo, com o desterro e o exílio; a Revolução gaúcha e a formação da Coluna Prestes são alguns dos momentos das inúmeras ações militares desenvolvidas pelos ‘tenentes’ até a vitória da Revolução de 1930” (TOLIPAN, 1983).

Os Tenentes. Fonte: http://exploradoresdehistoria-empep.blogspot.com.br/2011/05/tenentismo.html

Aliado a essa luta pela representatividade militar e das classes empresariais, com a perda da força em relação à economia cafeeira e a crise de 1929, o Brasil passa a se industrializar mais rapidamente. É nesse período onde se nota que o seu processo de modernização e urbanização se acelera, abrindo portas para uma nova visão sobre o país e uma sensação de novidade para a cultura brasileira.

A SEMANA

A Semana de Arte Moderna de 22 foi uma manifestação cultural com o intuito de criar um novo olhar sobre a produção artística nacional, exprimindo um senso de ineditismo e renovação em cima dos moldes tradicionais até agora estabelecidos no campo da arte. É fato então que a Semana de 22 não passa de uma culminação e uma antecipação das contestações que iriam percorrer o Brasil durante a década de 20 e que culminariam na Revolução de 1930. Inclusive, muitos dos participantes dessas revoluções eram artistas que apresentariam seus trabalhos durante a Semana.

A aceleração da industrialização trouxe um espírito de modernidade em relação aos costumes tradicionais, e as festas do Centenário da Independência só incentiveram esse sentimento de mudança.

Foi assim que “unidos por um ideal de renovação destrutiva, jogando por terra velhos cânones obsoletos, esse punhado de jovens intelectuais, poetas, jornalistas e artistas de São Paulo e do Rio de Janeiro desencadearam uma batalha de manifestação em meados de fevereiro de 1922” (BRITO, 1985).

Da esquerda para direita: Couto de Barros, Manuel Bandeiras, M‡rio de Andrade, Paulo Prado, RenŽ Thiollier, Graa Aranha, Manuel Villaboim, Gofredo Silva Telles, C‰ndido Mota Filho, Rubens Borba de Moraes, Lu’s Aranha, T‡cito de Almeida e Oswald de Andrade. Fonte: http://www.pracadoartesanato.com.br/novidades/calendario-90-anos-da-semana-de-arte-moderna/
Foram apresentadas três noites com exposições literárias e musicais, uma grande exposição de escultura, pintura e arquitetura, criadas por artistas como Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Di Cavalcanti, Przyrembel, Brecheret, Haarberg, Rêgo Monteiro e Villa-Lobos. Era claro o objetivo dos expositores de chocar, de se libertar do academicismo até então apresentado a cidade de São Paulo e as suas demais influências. Foram apresentadas diversas tendências, onde pode se destacar o expressionismo de Anita Malfatti.

 

Quadro A Boba, de Anita. Fonte: www.arquitetonico.ufsc.br/semanade22

Tal senso revolucionário aplicado àquele evento, eventualmente também seria tratado com diversas opiniões críticas, a favor e contra aqueles preceitos; invocando uma herança que é contestada e que dura até hoje. Em uma análise mais crítica, os objetivos, intenções e referências usadas para a criação dessa exposição são em grande parte muito ambíguas e intensamente julgadas pelos críticos de arte.

Diz-se que quando Anita Malfatti retornou ao Brasil, suas obras tornaram-se carregadas de intenções das vanguardas européias, fortemente influenciada pelo Cubismo, buscando experimentação e liberdade criadora com obras expressionistas. A crítica de Monteiro Lobato à Anita foi forte e causou grandes rumores. Disse o crítico que Anita tinha se deixado “(…) influenciar pela extravagância de Picasso e companhia (…)”, e acabou por causar uma discussão sobre a arte brasileira que culminaria na criação da Semana de 22.

Mas, não é contestável pensar que uma ideia que tinha como objetivo romper com o academicismo europeu viesse exatamente com Anita da própria europa? E a ideia de olhar para o interior do Brasil, de criar uma arte regionalista mimetizada pelas modas artísticas européias, não torna-se de pouco modo irônico? E a comparação que o escritor Ronaldo Brito faz entre os estritamente diferentes tipos de trabalho expressados por Anita e Tarsila do Amaral durante aquele período – de um lado o expressionismo, e do outro o racionalismo -, não são contraditórios entre si?

Catálogo da Semana de Di Cavalcanti. Notam-se as folhas de fundo para evidenciar o regionalismo brasileiro. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Semana_de_arte_moderna_1922.jpg

Em meio a afirmação da República, da solidificação de uma política, da consolidação da sociabilidade brasileira, veio prematuro o Modernismo brasileiro. Apesar de todas as conturbações, as vanguardas modenistas faziam sentido na Europa. A busca daqueles artistas brasileiros para atingir o nível de uma Europa fazia criar uma busca por uma identidade nacional, tentavam criar um sentido através de um olhar para eles mesmos. Agora não torna-se mais contraditório ainda buscar uma modernidade através da valorização do passado, da assimilação das tradições locais? Enquanto na Europa se divergiam pólos entre a ordenação rigorosa e o expressionismo, no Brasil ocorriam uma reunião de elementos diversos, de obras individuais com diferenciação técnica. “O Cubismo, o Fauvismo, o Suprematismo, o Neoplasticismo, são exemplos de Modernismo exclusiva ou predominantemente visuais. A sua eventual tradução brasileira, no entanto, se faria sempre através do filtro da brasilidade. A fixação de enunciados plásticos brasileiros, quase verbalizáveis, parecia uma necessidade estrutural do nosso Modernismo” (AMARAL, 1970).

Essa série de contradições são fundamentais para manter vivo o espírito da Semana de 22 e para não encerrar o assunto sobre o Moderno no Brasil. De fato, foi a primeira vontade dos artistas locais de se criar uma identidade artística nacional moderna, e é aí que ela possui os seus maiores ganhos: nos impasses, nas limitações e nas conquistas. Se não fossem elas, não haveria até hoje a tentativa de normalizar essa questão, seja para negá-la ou para melhorá-la, buscando sua integração com a realidade atual.

A SEMANA COMO INFLUÊNCIA DE UMA ARQUITETURA SUPOSTAMENTE MODERNA

A questão nacional estava na ordem do dia, manifestando-se em todos os setores da vida intelectual do país, e de forma particular em São Paulo. A guerra européia se encarregara de ferir de morte o espírito da Belle Époque e, embora as reações não se limitassem à busca nativista pelas raízes brasileiras, por algum tempo “modernidade”e “nacionalismo” foram quase sinônimos. A arquitetura neocolonial estava em voga na época graças ao engenheiro Ricardo Severo que, influenciado pelas suas visitas à Portugal e inspirado pela arqueologia e história, viu a necessidade de reafirmar a herança cultural através das construções que referenciavam a cultura nacionalista.

Casa do arquiteto, Ricardo Severo. Fonte: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.021/807

Por conta do uso já anterior da arquitetura neocolonial trazida por Severo à São Paulo, os trabalhos de arquitetura apresentados na Semana não invocaram tanto o sentimento de “novo” que os outros setores como literatura, música e pintura expressavam. Mesmo assim, a união do neocolonial com o moderno, de olhar para o interior em contra ponto com o novo inspirador, foi fundamental para o nascimento de uma vanguarda da arquitetura brasileira. Ironicamente, as vanguardas dos outros campos da arte acabam por se tornarem efêmeras e pontuais – mais relacionadas à própria manifestação da Semana de 22 -, e a vanguarda da arquitetura estabelece um marco zero, uma abertura de portas para uma nova onda de ideais arquitetônicos. Assim, “(…) a arquitetura neocolonial concretizava tanto as aspirações dos participantes da Semana de Arte Moderna, com os seus componentes de sintonia com as vanguardas e de rebeldia em relação ao oficialismo acadêmico, quanto aos sonhos estatais de apresentação de uma arquitetura brasileira (…)” (KESSEL, 2002).

Apenas dois arquitetos participaram da Semana de 22 e nenhum dos dois chegou perto de alcançar o que conhecemos hoje como arquitetura modernista. Antonio Garcia Moya e Georg Przyrembel expuseram trabalhos que já faziam parte do contexto de seus trabalhos anteriores, mas que, unindo-se aos preceitos da Semana, foram fundamentais para a criação de algo novo, uma arquitetura que posteriormente seria encontrada por outros arquitetos.

Residência, de Moya. Fonte: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.018/829

Fica claro como a opção modernista pela arquitetura moderna foi de início fundamentalmente teórica e estética. As questões racionais da vida urbana, da industrialização ainda se protelavam no mundo literário. As arquiteturas apresentadas por Moya advinham da sua experiência latino-americana, com referências de elementos maias e astecas, esboços “fantasistas” essencialmente geométricos e que nunca foram construídos, ficando apenas como projetos e exercícios volumétricos. Przyrembel seguia com seus resíduos de arquitetura neocolonial influenciados pelo classicismo francês, Art-Nouveau, Art-Déco e afins.

Desenho de Georg Przyrembel. Fonte: http://coisasdaarquitetura.wordpress.com/2011/01/28/a-arquitetura-na-semana-de-arte-moderna-de-1922/

Mas, a desqualificação do neocolonial pelos críticos alinhados ao modernismo corbuseriano impôs uma reavalização retroativa à arquitetura da Semana de 22. Pode-se dizer que foram Rino Levi e Gregori Warchavchik quem trouxeram alguns dos primeiros manifestos relacionados aos escritos de Le Corbusier ao Brasil e que continham algumas similaridades com o movimento neoclonial, como a funcionalidade, aversão à ornamentação excessiva, busca de um caminho próprio para a arquitetura, baseado no clima e na cultura brasileira.

A Casa Modernista de Gregori Warchavchik, 1922. Fonte: http://archiurbes.blogspot.com.br/2010/03/casa-modernista-80-anos.html

Warchavchik especialmente foi quem trouxe ao Brasil os principais ideais de Le Corbusier. Ele estabelece como meta a instauração de um circuito entre a razão e a ferramenta, a casa como uma máquina de morar. O arquiteto deveria ser também um engenheiro, adequar-se aos novos conceitos e premissas da era das máquinas, criando obras que pudessem ser feitas em grande escala. Uma arquitetura futurista, adequada ao seu tempo, assim como aquelas que a antecederam. Desses conceitos surjem os clássicos ítens formais de Le Corbusier como o uso de pilotis, fachadas livres, terraço-jardins, janelas horizontais e plantas livres. Warchvchik foi então o pioneiro do modernismo da arquitetura brasileira, tendo as residências como os seus (e do Brasil) primeiros projetos modernistas.

A Casa Modernista de Gregori Warchavchik. Fonte: http://arqpb.blogspot.com.br/2012/03/arquitetura-realidade.html

A partir daí, em conjunto com todas as outras vanguardas da época, como a Bauhaus, De Stijl, arquitetos como Mies Van der Rohe, Frank Llloyd Right e é claro, Le Corbusier, dava-se os primeiros passos no Brasil o que chamamos hoje de arquitetura moderna ou modernista. Tomados pelo espírito de renovação, de olhar introspectivo para o valor regional e de industrialização, aconteceimentos como a Semana de 22 foram apenas alguns dos motivos e causas da criação desse novo ponto de partida para a arquitetura que começaria com Warchavchik e que culminaria com o edifício do Ministério da Educação e Saúde projetado por Lúcios Costa e seus colegas modernistas.

Referências


1 - AMARAL, Aracy. 1970. Artes Plásticas na Semana de 22. São Paulo, Perspectiva.
2 - BRITO, Ronaldo. A Semana de 22. Caderno de Textos, Arte Brasileira Contemporânea, 1985.
3 - FARIAS, Agnaldo A. Caldas. 1992. Gregori Warchavchik – Introdutor da Arquitetura Moderna no Brasil. Revista Óculum – no. 2. Pg. 08-22.
4 - KESSEL, Carlos. Vanguarda efêmera: arquitetura neocolonial na Semana de Arte Moderna de 1922. 2002.
5 - TELLES, Sophia S. A Arquitetura Modernista. Caderno de Textos, Arte Brasileira Contemporânea, 1985.
6 - TOLIPAN, Sérgio. Sociedade e Modernização, o Brasil dos anos 20. Caderno de Textos, Arte Brasileira Contemporânea, 1985.
7 - http://www.arquitetonico.ufsc.br/semanade22
  • Marjorie

    Muito Legal esse assunto me ajudou no trabalho da escola.

Escrito por: Lucas Passold
Postado em: 7 de July de 2012

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