A reforma urbana de Pereira Passos no Rio de Janeiro | Arquitetônico

 

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A reforma urbana de Pereira Passos no Rio de Janeiro

A relação entre as reformas ocorridas no Rio entre 1903 e 1906 e o processo de crescimento desigual da cidade

A geografia das grandes cidades nem sempre segue uma lógica de desenvolvimento lenta e espontânea. Há exemplos de grandes reformas que impactaram de forma imensamente significativa o processo de desenvolvimento de imensas áreas urbanas. Este post trata de fazer uma breve relação entre a reforma feita no Rio de Janeiro no início do século XX e a configuração atual da cidade.

A paisagem do Rio de Janeiro notabiliza-se fundamentalmente por seus contrastes. A relação entre o mar e as montanhas, entre o tumulto dos centros econômicos e a beleza das praias… E também os contrastes sociais, escancarados como em poucas outras cidades mundo afora. Pode-se dizer que um dos momentos cruciais para a ocupação do Rio foi a abolição da escravatura em 1888. Esse momento histórico agravou a crise da produção cafeeira no Brasil, e com isso causou um grande êxodo do campo para as cidades. Além disso, a Lei Áurea criou instantaneamente uma imensa massa de desempregados miseráveis, analfabetos e sem qualquer capacitação profissional. Foram esses novos desempregados que começaram a se amontoar no Centro do Rio ao longo da segunda metade do século XIX. Naturalmente, a demanda por moradia e emprego era muito maior que a oferta, restando a essa massa o improviso. O Rio de Janeiro, então uma cidade que acumulava as funções administrativa e portuária, foi vendo as ruas estreitas e tortas de seu centro antigo lotarem de cortiços. Em 1902 eram em torno de 600, que representavam a única opção de moradia para a legião de pobres que vivam no Rio. As ridículas condições de higiene daqueles locais fizeram com que a cidade fosse infestada por diversas pestes como a malária, a febre amarela e a varíola. A propagação de doenças acabou por ser o pretexto que faltava para uma grande reforma que já era pensada havia tempos: pretendia-se adequar a cidade do Rio de Janeiro ao status de capital do Brasil, cortando-o com largas avenidas e edificações imponentes ao gosto do modelo de produção que viria a instalar-se a partir desse período.

Cortiço no Centro do Rio

O principal plano de reforma urbana do Rio de Janeiro foi enfim levado a cabo pelo prefeito Francisco Pereira Passos a partir de 1903, sob incentivo do presidente Rodrigues Alves. A inspiração para esse projeto ambicioso não podia ser outra senão a famosa reforma urbana de Paris levada a cabo pelo infame Barão de Haussmann. O político francês, ao longo de 17 anos (1853-1870), derrubou casas, eliminou ruas estreitas medievais e rasgou Paris com imensos boulevards, elevando às alturas o custo do solo no centro da capital francesa e expulsando os pobres para as periferias. Em outras palavras, Haussmann deu a Paris a cara que a cidade possui hoje, sendo sua reforma responsável por vários dos símbolos que Paris ostenta, como a própria Avenue des Champs-Élysées. Não me proponho aqui a avaliar o episódio, mas somente apresentá-lo como referência fundamental àquilo a que o Rio de Janeiro assistiu algumas décadas depois. Há que se notar que a imitação da reforma parisiense é muito limitada, quase se restringindo à criação de grandes avenidas centrais por meio da expulsão daqueles pobres que, em seus cortiços, estragavam a paisagem do centro administrativo do país. Sob o argumento da higienização da cidade do Rio – higienização que de fato houve – a gestão Pereira Passos em quatro anos deu seqüência a um plano que já havia sido iniciado anos antes com a derrubada de alguns cortiços (como o célebre Cabeça-de-Porco). Nesse período inúmeros moradores do Centro receberam ordens de despejo, e seus cortiços foram postos abaixo para a construção de avenidas, praças e novos edifícios.


Demolições para a construção da Avenida Central (hoje Avenida Rio Branco)

Theatro Municipal, uma das obras mais importantes de Pereira Passos

Avenida Rio Branco hoje, no trecho entre a Rua do Ouvidor e a Sete de Setembro

Foram, entre 1903 e 1906, duas grandes reformas: uma modernização da zona portuária degradada e em seguida uma intervenção maior no Centro histórico. Ruas estreitas e insalubres sumiram do mapa, cortiços e casas pobres foram postas abaixo, e surgiu no Centro a Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), assim como a Francisco Bicalho, a Rodrigues Alves, a Avenida Maracanã e a Avenida Beira-Mar, que se propunham a facilitar a ligação entre o Centro e os bairros residenciais mais abastados. Destacam-se também nessa época que revolucionou a malha urbana do Rio os alargamentos de vias como a Marechal Floriano, a Rua do Catete, a Uruguaiana, a Rua da Carioca, entre tantas outras; e a construção de obras importantíssimas como o Theatro Municipal, uma das marcas da administração de Pereira Passos.

Planta do Rio de Janeiro com destaque para as novas avenidas propostas à época

Sob muitos aspectos a administração Pereira Passos obteve sucesso naquilo a que se propunha. Melhorou o então emergente fluxo de veículos na cidade, diminuiu a distância entre diversos locais, melhorou as condições de higiene. Mas nem tudo ocorreu conforme o planejado: a idéia de elitizar o Centro e afastar dali para conjuntos habitacionais na periferia a população pobre não conseguiu ser totalmente posta em prática. A topografia carioca pôs-se a favor daqueles que foram removidos de seus lares miseráveis, e lhes ofereceu uma alternativa para se manterem no Centro, próximos de seus empregos: os morros. A periferização da população pobre não ocorreu exatamente como se supunha, ao passo em que a paisagem da auto-construção (feita em placas e chapas de madeira, em geral resíduos da demolição de cortiços e da construção de novos edifícios) nas bases dos morros impôs seu contraste em meio às elegantes avenidas traçadas pelos engenheiros e urbanistas a serviço de Pereira Passos. Se por um lado não se pode de jeito nenhum atribuir a uma só administração em um momento histórico o atual cenário do Rio de Janeiro (vale lembrar que para muitos historiadores a primeira ocupação de morro para construção de barracos no Rio começou em 1893), por outro lado fica clara a relação que a reforma excludente praticada no início do século passado teve no processo de criação desse cenário.


Morro da Provicência (então Morro da Favela) no início de sua ocupação, no fim do século XIX


Morro da Providência nos dias de hoje

As reformas urbanas do Rio de Janeiro ocorridas entre 1902 e 1906 marcam um momento crucial por que passava o país: a passagem do meio de produção mercantil para o capitalismo. É um momento em que se nota de forma escancarada a ação do Estado em privilégio do capital, e de certo modo a transferência de responsabilidades ao setor privado, ou seja, trata-se de um momento em que o Estado delega ao capital privado a função de estruturar a cidade – tendência observada até hoje. Sem a intervenção estatal, a lógica de crescimento da cidade passa a seguir a lógica do mercado, que leva à valorização do solo nas áreas centrais e à periferização das classes baixas, sem a criação de uma estrutura que permita sequer o deslocamento do morador da periferia até as áreas centrais da cidade, bem como um crescente esvaziamento dos centros históricos. O Rio particularmente se notabiliza pela ocupação dos “vazios urbanos” por parte dessa população carente, mas é importante ressaltar que a proximidade dessas ocupações não lhes garante qualquer atenção do Estado. São áreas que fisicamente estão próximas dos grandes centros, mas que historicamente sempre estiveram na periferia das prioridades do Estado.

Voltando a Paris, a cidade cuja reforma foi mal e mal copiada (melhor dizendo, foram copiados alguns aspectos criteriosamente selecionados). Por que na capital francesa não se observa o mesmo fenômeno ocorrido no Rio? Porque em Paris os erros históricos foram corrigidos sobretudo com a forte intervenção estatal ocorrida no período pós-guerra, durante os anos da social-democracia. As tendências de esvaziamento das áreas centrais e periferização, notáveis no Rio de Janeiro e em outras grandes cidades brasileiras, também deram as caras em Paris, mas naquela cidade o Estado interveio no sentido de regulamentar e organizar o crescimento da cidade. Em 1967 foi aprovado por decreto um plano urbanístico para Paris, com diretrizes que propunham o equilíbrio do crescimento da cidade, a manutenção da ocupação do Centro histórico, entre outros. O plano diretor parisiense poderia, a propósito, protagonizar um bom post aqui no Arquitetônico.

É possível observar, desde o início do século, o Estado delegando suas funções ao capital privado, mostrando-se na verdade a serviço do mesmo. Nesse contexto, o nascimento do fenômeno da favelização do Rio de Janeiro pode ser entendido como uma maneira de as classes excluídas do processo de crescimento da cidade exercerem seu direito à cidade, apropriando-se dos vazios deixados pelas reformas urbanas do Rio, e com isso intensificando tensões sociais preexistentes, e que cresceriam ainda mais nos anos posteriores devido à manutenção dessa exclusão perversa.

Esta é, naturalmente, apenas uma das várias abordagens possíveis do processo de crescimento excludente do Rio de Janeiro. Mas as reformas urbanas desse período denotam definitivamente uma afirmação do papel que o Estado assumia nesse processo, em favor da modernização e elitização da cidade por meio da sumária expulsão dos desfavorecidos para a periferia.

  • felipe

    parabéns pela matéria muito interessante mesmo muito rico de informaçôes e detalhes sobre um prefeito e sua obra urbanistica e ecluidora tambem

  • Caroline

    Muito obrigada pela publicação, precisava estudar sobre o assunto e o texto foi perfeito!

  • diego

    Parabens velho pelo artigo, estava precisando para fazer um trabalho, ajudou muito!

  • diego

    Ah, eu esqueci de dizer para cuidar com os erros simples de gramática!

  • Guida

    Oh !

    muito obrigada, era justamente o q. eu procurava !

    Bravo

  • Joana Darc

    demais , muiot bom parabens, espero que venha mais por ai , o rio tem imumeros pontos, casas, igrejas , etc… que vale a pena ser revelado e reformado, essa matéria caiu como uma luva pro trabalho do meu filho.

  • josé inácio

    achei mt interesante, e bem maneiro

  • Natália

    Excelênte garoto,muito bom… me ajudou pacas !!!

  • Ketherin

    Ah mt leeegal , hj tenho proova me ajudou bstntt , !

  • Ketherin

    Aah mt leegal :) me ajudoou bstaantãão hj teenho proova vlw , !

  • http://www.bchicomendes.com Douglas Carrara

    Parabéns, o texto está excelente e os fundamentos históricos muito bem articulados.
    Obrigado mais um vez pelo belo texto.

    um grande abraço

    Prof. Douglas Carrara

  • Guilherme

    Parabéns pelo trabalho

  • sarah lissa

    poxa vey .. muito mane.
    cara hj tenho um trabalho a fazer e peguei tudo daqui.
    namoral se não fosse esta enquete não fazeria nada..

Escrito por: Guilherme Ruchaud
Postado em: 28 de September de 2011

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